terça-feira, 19 de junho de 2012

EIA AGORA!!!!


Depois de nos libertarmos pelo pensamento da ação do peso, a fim de nos emanciparmos da servidão que nos liga à Terra, seguiremos esta com os olhos do espírito e examinaremos ligeiramente a sua superfície. Tomaremos, depois, uma parcela da substância de que ela é formada e buscaremos compreender-lhe a constituição; partiremos do átomo, em uma palavra, e, por degraus enormes, tentaremos escalar as alturas da imensidade, a fim de obtermos, caso possa ser, uma idéia do Macrocosmo.
“Lançai os olhos sobre o globo terrestre – dizem os partidários dessa teoria diluviana – e observai quanto difere o hemisfério sul do setentrional: neste último, só vereis terras; ao contrário, no Sul as águas dominam, e aí estão de alguma sorte acumuladas. Os elevados planaltos, os cimos das regiões montanhosas, sob a forma de ilhas, encontram-se aí copiosamente. Além disso, todos os continentes, as duas Américas, a África, a Índia, as grandes penínsulas indo-chinesas, terminam em ponta na direção do hemisfério para o qual correram as águas. Que significaria e que destino teria essa Atlântida, cuja reminiscência se transmitiu através das idades e foi ilustrada por Platão, se não a considerarmos um continente por aquela forma submergido?

O que indicam – acrescentam eles – estas camadas alternadas e superpostas de fósseis marinhos, depois de fósseis telúricos, depois marinhos, que ainda encontramos debaixo do solo dos nossos campos, e até sobre nossas montanhas, senão que o Sol alumiou ao nível do mesmo ponto o oceano e o continente habitado?”
O nosso pensamento voa livremente, desligado de todos os laços materiais, acima da superfície terrestre, acima das ilhas de gelo, colossais, que se entrechocam e enchem os ares de escuma e poeira de neve, acima destes continentes que se esboroam com toda a vida que encerram nos negros abismos dos novos oceanos: só temos a temer os grandes cataclismos periódicos. Que importa um dilúvio de mais ou de menos? Isto não poderia perturbar-nos em nossa indagação do absoluto e compreendemos muito bem Arquimedes, alheio às coisas que o cercavam, impávido, deixando-se matar pelos antropomorfos, cujo ferro assassino lhe cortou o êxtase científico.
Comecemos, pois, o nosso estudo do macrocosmo.

A teoria atômica, como a dos equivalentes químicos, ambas deduzidas de proporções determinadas e constantes, encontradas nas combinações dos corpos entre si, induzem-nos a considerar a matéria como sendo um composto de elementos extremamente sutis, grupados uns com os outros, de diferentes modos: dá-se o nome de moléculas a estes elementos. Mas, a análise vai mais longe: estas moléculas, por menores que as possamos imaginar, compõem-se de aglomerações de outros elementos “indivisíveis”, como o indica o seu nome; estes elementos da molécula são os átomos.
Se a esta pergunta: “que é a matéria” se respondesse: “é uma coisa que podemos ver e tocar, coisa formada de partes elementares, que, consideradas    como matéria, não existem        absolutamente”, suponho que muitas pessoas ficariam surpreendidas ouvindo tal definição. E, entretanto, isso é sustentado por personagens eminentes, tudo o que há de mais eminente, os partidários da Teoria do átomo inextensível.
Não sei com segurança se essa idéia foi discutida pelos antigos filósofos gregos; o certo é que ela existe simbolicamente expressa nas filosofias indostânicas. Em todo caso, por meados do século passado, ela foi apresentada pelo padre Boscowich. Sábios como Ampère, Faraday, Cauchy, etc., e filósofos quais Dugald-Stewar, Vitor Cousin, Vacherot (Revue des Deux Mondes, agosto de 1876), etc, constituíram-se campeões convencidos da idéia do átomo inextensível, que se não deve confundir com a Teoria sustentada por Hume, Berkeley, Hamilton, Stuart Mill, Coyteux, entre outros, e segundo a qual nada existe. Górgias, o célebre sofista de Leontinos, havia ensinado a doutrina de que nada existe, mais de 400 anos antes da nossa era.
Que seria o átomo então? uma ficção matemática? Certamente que não, mas os elementos da matéria parecem ser unos e semelhantes para todos os corpos; os alquimistas, apoiados nessa idéia, procuravam e ainda procuram a transmutação dos metais. Além disso, podia suceder que, nesse ponto, a força e a matéria se encontrassem e se confundissem; eis um assunto do qual nos tornaremos a ocupar.
Seja como for, em virtude da grande lei da conservação da matéria, que Lavoisier definitivamente estabeleceu, apesar de seus movimentos e migrações perpétuas, o átomo não varia nem se destrói: é indestrutível e invariável, constituindo apenas um elemento fluídico, cíclico, giratório do fluido universal de que a matéria é formada (Helmholtz, William Thomson, Tait, etc.).
A energia animal dos átomos, de um movimento tão rápido que a imaginação não pode fazer uma idéia dele, seria pois o agente real que fixa a molécula e esta por sua vez não será senão a energia condensada? Simples teoria!... A verdade é que os físicos estão hoje de acordo, considerando os corpos mais densos como representando apenas em aparência uma superfície contínua, como, por exemplo, uma esfera, oca, de prata, cheia de água e soldada hermeticamente. Colocando sobre uma bigorna esta bola e batendo-se-lhe com um martelo, a água escapa-se por todos os poros do metal a cada golpe do martelo e vem aljofrar a sua superfície, segundo experiências dos acadêmicos de Florença. Outros fatos nos demonstram que a idéia da impenetrabilidade da matéria dos corpos é absolutamente falsa. Sem falar da mistura de uma parte de álcool e outra de água, que dá um volume total inferior aos dois volumes primitivos dos dois líquidos separados – porque pode dar-se neste caso uma variedade de combinação –, os fatos persistentes de penetrabilidade produzidos sob a influência da força psíquica – como o anel de vidro e o anel de marfim, que subitamente aparecem enfiados um no outro quais elos de uma corrente, não guardando vestígio de solução de continuidade – estes fatos demonstram, não somente a penetrabilidade dos corpos, mas também a sua desmolecularização e reconstituição possíveis ad integrum, sob a influência de certas forças das quais a ciência futura vai fazer um dos objetos principais de observação.
O volume das moléculas pode ser, quando muito, avaliado por milionésimos de milímetros, e mesmo levando em conta o espaço relativamente considerável que as separa, é ainda por trilhões, quintilhões, sextilhões que devemos contá-las em um milímetro cúbico.
Elas estão em um estado contínuo de agitação, de projeção, de choques violentos, de atração, de repulsões enérgicas, das quais é sem dúvida um pálido reflexo o movimento browniano das partículas microscópicas. Fazemos uma idéia do seu tremendo turbilhão, quando vemos que no hidrogênio, em pressão e temperatura ordinárias, as moléculas deste gás estão animadas da velocidade mais ou menos de 2.000 metros por segundo (Joule) e que cada uma sofre de suas vizinhas cerca de 17 bilhões de choques no mesmo espaço de tempo (Clausius, Maxwell, Boltzmann). “É o bombardeio operado por essa multidão de pequenos projéteis contra a parede envolvente, que constitui a tensão dos gases”, diz M. E. Jouffret em notável trabalho, onde encontramos, a respeito da reconstituição da matéria, numerosas exposições desenvolvidas e claras, sabiamente estudadas (Introduction à l’étude de l’Énergie).
Cada molécula, formada por uma multidão de átomos-turbilhões, é hoje considerada por alguns sábios do modo pelo qual ela o foi antigamente por iniciados da Índia e do Egito, isto é, como um sistema planetário “com todas as complicações de movimento e de vida”, dirigida esta, segundo os pandits da Índia atual, por inteligências elementares inferiores (élémentals). Os corpos, que são aglomerações de moléculas, seriam assim os análogos das vias-lácteas e das nebulosas resolúveis.
Em resumo, tomando uma partícula microscópica de matéria qualquer, se a dividirmos em pensamento muitos milhares de vezes, chegaremos a obter uma molécula que só seria percebida por meio de nossos instrumentos mais poderosos, se o poder de aumento dos mais fortes microscópios crescesse cerca de mil vezes. E esta molécula é por sua vez uma aglomeração de átomos, que podemos considerar como turbilhões, círculos de energia, produzindo, por movimentos variados, as aparências da matéria, tal como a percebemos. Uma parcela de dinamite, onde se acumulasse enorme quantidade de energia mecânica, poderia representar uma imagem grosseira da molécula considerada segundo as mais sábias teorias, comparando a energia mecânica da dinamite à energia condensada na matéria, e os gases, condensados indiretamente pelas manipulações químicas na dinamite, ao Éter arranjado sob a forma de átomos na molécula. A matéria não passaria, pois, de uma aparência da energia.
Em presença desta análise da matéria e dos resultados a que ela conduz, não estaríamos autorizados a admitir, com Hume, Berkeley, Hamilton, Stuart Mill, Coyteux, etc., que nada existe realmente? Sim, se só houvesse matéria e energia (força) no mundo, porque a própria energia, assim como veremos mais adiante, tende, não a desaparecer, mas a repousar “no sétimo dia”, e o dinâmico tende a tornar-se puramente potencial. Em outras palavras, o Universo tende ao repouso absoluto.
Precisamos, pois, por meio das luzes da ciência moderna, tratar de esclarecer-nos sobre os símbolos hieroglíficos da ciência antiga, os quais nos foram conservados. Por que razão todos os antigos escritores sagrados – pagãos, judeus-cristãos, etc. – empregaram tanto cuidado e unanimidade em repetir que “Deus fez o homem à sua imagem”, ou que “o homem é um microcosmo” – o que, sob o ponto de vista hermético, significa exatamente a mesma coisa? É que a maior parte desses escritores, versados em uma ciência que, sem dúvida, os homens vulgares ainda não merecem conhecer, haviam surpreendido a analogia de composição do homem e do Universo; haviam aprendido experimentalmente que os elementos da “tétrade sagrada” se encontram no homem. Eles não tinham esperado F. Bacon para inventar o método experimental, mas não divulgavam a todo mundo os segredos que arrancavam à Natureza: sagrado para eles, significava aquilo que o vulgo não devia saber; como, porém, não quisessem que ficassem perdidas as suas descobertas, assinalaram-nas em expressões obscuras, velaram-nas sob figuras simbólicas que servissem de guia à memória de seus discípulos, ou provocassem a atenção do observador não vulgar e bom, em cuja inteligência eles devessem reviver um dia.
Não, para compreender-se a essência da vida não é inútil fazer-se o exame comparado do Universo e do homem, do macrocosmo e do microcosmo.
E depois, só podemos ter concepções claras das coisas elevando nossa alma acima das operações ordinárias do pensamento, de onde nascem, quase sempre, os preconceitos, as idéias errôneas, as ilusões a respeito do que nos cerca. É mister libertarmos, embora momentaneamente, o nosso espírito do quadro estreito da vida cotidiana, a cujas exíguas dimensões ele tende a amoldar-se. A concepção da natureza do homem é daquelas.





Que nos habituemos a considerar tudo em relação com o espaço e o tempo, com a imensidade e a eternidade. Quão minúsculos nos apareceriam grandes acontecimentos e altas situações, se os sujeitássemos ao cálculo desta regra de proporção? Mas, é esta uma operação que não está ao alcance de toda gente; non licet omnibus...
Outra condição que importa também não desprezar é a de curar-se o homem desse orgulho que acompanha inevitavelmente uma má educação científica e uma instrução especializada, incompleta, como são tão freqüentes em nossos dias. Pessoas muito esclarecidas em um pontinho especial dos conhecimentos humanos julgam poder decidir arbitrariamente sobre todas as coisas e repelem sistematicamente toda novidade que lhe choque as idéias, quase sempre por este único motivo – que em geral não confessam – que se aquilo fosse verdade, elas não podiam ignorar! Por minha parte, encontrei freqüentemente esse gênero de basófia entre homens cuja instrução e estudos deveriam preservá-los dessa deplorável enfermidade moral, se não tivessem sido especialistas, escravos da sua especialidade. É sinal de inferioridade relativa uma pessoa julgar-se superior!
Enfim, o número de inteligências que sofrem de lacunas é maior do que se julga geralmente. Do mesmo modo que determinados indivíduos são totalmente refratários ao estudo da música, das matemáticas, etc., a outros muitos estão interditas certas investigações do pensamento. Uns, que se distinguiram nesta ou naquela classe de ocupações: na medicina ou na mercearia, na literatura ou na arte de fabricar panos, segundo toda a probabilidade, teriam lastimosamente falhado se houvessem escolhido – como outros tantos que abarrotam o mundo – uma carreira situada fora do que chamarei a zona lúcida, à semelhança da ação dos refletores que, durante a noite, transmitem a luz a uma zona de feixes luminosos, fora dos quais só há sombra e incerteza.
Coisas existem que não estão ao alcance da concepção de certas inteligências: estão fora de sua zona lúcida.
É inútil insistir mais: algum crítico mal disposto poderia reconhecer-se nestas observações e acusar-me, em represália, de haver escolhido um assunto fora da minha própria zona. Queiram os deuses preservar-me de semelhante infelicidade!...

Patricia Jorge Alves
Terapeuta Homeopata

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